Por que seu filho não quer fazer a lição? Indicado por Patrícia

Minha geração e as anteriores começaram a maturidade da comunicação, a fase em que se aprende a ler e a escrever, abraçando um lápis com a mão, num exercício artesanal de caligrafia. Um processo que, para ser veloz, tinha que ser muito bem pensado, já que dava trabalho interromper o pensamento para apontar o lápis, apagar com a borracha e reescrever aquilo que tinha sido elaborado. Sobre pesadas carteiras de madeira, nós nos preocupávamos com o estado dos cadernos, que deveriam ser apresentados limpos, sem rasuras ou borrões. Os livros deveriam ser bem cuidados e não ter orelhas; ganhavam-se pontos não só pelas respostas bem dadas em sala de aula ou nas provas, mas também pelo capricho — alguém lembra dele, do capricho? As mãos dos professores apresentavam o castigo da secura do giz e nossos uniformes, cabelos e sapatos — sim, sapatos, não tênis — passavam por um exame diário de impecabilidade. Isso não aconteceu na Idade Média, mas há até pouco menos de 20 anos atrás. Eu poderia abordar, na minha primeira crônica em ÉPOCA, um assunto do universo das celebridades, sobre o qual me debruço há tantos anos. Mas, nesses dias de pré-estreia, ante a nova e boa fase que se anuncia, me peguei pensando em minha vida anterior, a de professor. Sim, antes de me dedicar a saber quem beijou quem, que restaurante está na moda e quais as tendências da temporada de desfiles, o que é uma delícia, meu ofício era fazer passar de ano adolescentes que apresentavam dificuldades de aprendizado e estavam em recuperação em três, quatro, até oito matérias, outra delícia. Era uma tarefa multidisciplinar, que ia do português às funções trigonométricas, passando por inglês, francês, História e as leis de Newton. E, durante oito anos, presidi uma entidade de escolaridade para portadores de deficiência neuro-sensorial, portanto me tornei um obcecado pela educação. Nos últimos anos, acompanhei a transformação de uma geração de crianças que deixaram o movimento do abraço do lápis pelo da digitação. Cada vez mais sagazes, elas se adaptaram perfeitamente aos gadgets que iam surgindo: PCs, internet, celulares, câmeras digitais, Ipods, Ipads. Aos poucos, foram deixando de ser inebriadas pelo cheiro dos livros pelo poder de entretenimento dos aplicativos e descobriram que lhes eram necessários apenas os polegares para se comunicarem, via torpedo. No caso dos deficientes, alguns desses avanços tecnológicos permitiram que eles superassem seus desafios naturais com mais rapidez. Alunos que mal conseguiam equilibrar uma caneta entre os dedos tiveram a oportunidade de aprender a se comunicar com um simples toque na tela ou até piscando em direção a uma letra, quando os braços, paralisados, lhes faltavam. Num mundo cada vez mais visual e de pequenos toques, as crianças aprendem instintivamente a importância das cores, dos sinais, da edição de vídeos, do tratamento das imagens. A nova mania dos adolescentes é postar no Instagram, uma espécie de Twitter de fotos, em que postam seus cliques com poucas palavras (ou nenhuma) depois de passá-los por um filtro, que pode ser preto e branco, sépia, psicodélico — a coisa segue de acordo com o gosto e o humor dos fregueses. É uma ferramenta que pode ser usada de maneira estúpida ou extremamente criativa, mas que recupera o apreço pelo cuidado com a imagem, como nas salas de aula de artes de antigamente. É uma forma moderna de se educar e adestrar o olhar. Quando chegam à escola, às vezes amontoadas numa sala de 35, 40 alunos, as crianças se sentam em carteiras de fórmica branca com apenas um braço para apoiar os cadernos, assim se economiza espaço. Em frente à lousa — branca, com caneta hidrocor —, assistem a longas palestras de 50 minutos sobre os mesmos conteúdos que seus pais e avós decoravam no passado, apresentados e cobrados da mesmíssima forma. Uma maçaroca de matérias sem atrativo e sem as novas formas de interatividade, que não leva em conta as habilidades individuais, as aborrece. No futuro, elas se verão obrigadas a fazer apresentações em iPads, Power Points e o que mais surgir por aí, só que os trabalhos escolares ainda seguem as normas dos cartazes e da repetição papagaiesca de decorebas e fórmulas. A recente obrigatoriedade do ensino de filosofia e sociologia no ensino médio — que, em mãos inábeis pode virar instrumento de retórica pseudo-esquerdista — é um anacronismo, um disparate. Filosofia e sociologia se aprendem, intrinsicamente, em História e Geografia, com o espírito de reflexão crítica dos assuntos estudados. Talvez seja utopia exigir uma revolução no paradigma de ensino num Brasil em que ainda se veem alunos amontoados em salas improvisadas cheias de goteiras e que mal aprendem matemática e português. Mas é preciso sair da Idade da Pedra Lascada para a do aplicativo, sob pena de formarmos uma geração de analfabetos visuais. Não que adorássemos sempre acordar cedo para ir para a aula, longe disso. Mas as crianças de hoje, que são bem mais espertas e informadas, andam desconfiando de que estão sendo preparadas ali para um mundo que não será o delas. E sentem uma lenta e gradual desafeição pela escola, o que, convenhamos, é mais triste do que odiá-la. (Bruno Astuto)


Patrícia é mãe da escola e sabe que a tecnologia é uma realidade necessária atualmente, mas anda ensinando seus filhos a abraçarem o lápis.